36 Brasil Energia, nº 482, 15 de agosto de 2023 entrevista Suzana Kahn je, muito se fala em justiça climática, mas tenho a impressão de que pouco se fala em justiça energética. Como harmonizar, portanto, as justiças climática, energética e econômica no mundo de hoje? Acho que o barateamento das fontes renováveis é o caminho mais curto para alcançar o equilíbrio. E isso pode ocorrer de duas formas: de um lado, o aumento de escala e, do outro, o financiamento e transferência de tecnologia dos países ricos para os emergentes. É o que a gente chama de leapfrogging. Não precisa passar por todas as fases anteriores para poder entrar direto em uma opção de geração mais limpa. Ninguém vai mais precisar queimar madeira para ter energia. Aumentar a escala faz cair os custos de produção. Já a transferência de tecnologia e a implementação de um modelo de financiamento para os países mais pobres podem reduzir as assimetrias globais, que seria mais justa. Quando estamos falando de clima, tratando do planeta como um todo, é possível ter uma matriz excessivamente limpa em alguns lugares, mas em outros não. Tem desigualdades sim, até dos recursos. Não dá para você passar uma régua e dizer “todo mundo vai usar renovável o tempo todo”, porque em alguns lugares é impossível, é caro chegar lá. E é uma das razões de a gente ter conseguido assinar o Acordo de Paris. Copenhagen foi uma tentativa de acordo top down com meta determinada para os países seguirem, que não funcionou. Já em Paris teve acordo, onde cada país signatário se comprometeu a reduzir as emissões dentro de suas possibilidades. Eu vejo que o mundo tem que ser total flex, com soluções que fazem sentido para cada região. Até pouco antes da guerra, os europeus estavam na vanguarda do debate climático. De repente, o conflito militar desorganizou toda a ambição da União Europeia. Na sua opinião, essa guerra acelera a transição energética europeia ou retarda esse processo? A guerra colocou a transição energética dentro de uma perspectiva de falta de energia. A transição deixou de ser um desejo de curto prazo, tornando-se uma necessidade para o médio e longo prazos, pois diante da possibilidade de faltar energia, os europeus voltaram a queimar combustível fóssil. Você não pode imaginar um mundo que não gere impacto e que não tenha energia. Tanto que a segurança energética entrou em cena como um subproduto dessa crise entre Rússia e Ucrânia. Para ter segurança energética é preciso ter um portfólio de fontes e de opções de abastecimento. Isso não é simples, principalmente tendo que buscar opções economicamente viáveis. No caso do Brasil, não estamos utilizando todas as nossas possibilidades, como o uso de biomassa, que poderia ser mais bem explorado. Não estamos explorando o potencial de uma economia tropical. Hidrelétrica, eólica, todas vão causar algum tipo de impacto. O que é importante é analisar e encontrar um consenso para ver o que nos beneficia. No caso do interior do país, a biomassa em todas as suas formas deve ser privilegiada. E o gás natural, onde entra nessa história? Recentemente, num artigo publicado no Valor, você deu a entender que o gás natural pode não ser uma solução para o Brasil… O gás natural não é exatamente uma solução para o Brasil como é para a Europa. Na realidade, o que temos no Brasil são enormes reservas de óleo com gás associado, o que implica um custo elevado de produção e escoamento, já que a sua maior parte está situada em campos muito distantes. Então, atualmente, não é competitivo chegar com o gás que está a 200 km, construir
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