e-revista Brasil Energia 482

Brasil Energia, nº 482, 15 de agosto de 2023 67 Em junho, uma das principais fabricantes de aerogeradores do mundo, a Siemens Gamesa, divulgou publicamente precisar investir mais de 1 bilhão de euros para remediar problemas técnicos com seus equipamentos, o que provocou quedas bruscas em suas ações e causou um receio no mercado de que o cenário tem potencial de se tornar endêmico e se alastrar para todo o restante da cadeia do setor. Para tentar entender a complexidade do problema, a reportagem da Brasil Energia entrevistou uma das maiores especialistas do assunto no mundo, Evgenia Golysheva, vice-presidente de estratégia e marketing da inglesa Onyx Insight, empresa que monitora e rastreia por tecnologias preditivas próprias mais de 14 mil turbinas eólicas em 30 países, incluindo o Brasil, onde aliás a especialista identifica déficit de adoção de tecnologias digitais na operação e uma cadeia de prestadores de serviços independentes insuficiente. Leia a seguir a entrevista feita por email: É possível dizer que os problemas que afetaram a Siemens Gamesa podem se espalhar para outros fabricantes de turbinas eólicas no mundo? Os problemas relatados pela Siemens Gamesa não são novos ou únicos. Embora as turbinas sejam certificadas por 20 anos, nem todos os componentes durarão o mesmo tempo. Simplesmente não seria viável fazê-los durar por todo esse período. Isso aumentaria significativamente o custo, o tamanho e o peso de componentes individuais. Mas o principal problema não são as falhas em si, mas o fato de elas não serem orçadas previamente ou geridas adequadamente. Embora cada modelo de turbina tenha seu ponto fraco de confiabilidade, não há uma diferença fundamental entre as turbinas dos diferentes fabricantes (OEMs). Além disso, a questão da confiabilidade e das ineficiências na operação têm sido um pouco mascaradas pela introdução de novas turbinas ainda maiores a cada ano. Os desenvolvedores, que operam em um espaço muito competitivo, estão incluindo custos operacionais (opex) mais baixos em seus modelos financeiros, assumindo melhorias de confiabilidade de tecnologias de turbina mais recentes. O mesmo clima competitivo afeta os provedores de serviços, incluindo os próprios OEMs, que oferecem contratos completos, que incluem o risco de falhas de componentes importantes sem ter um histórico suficiente de tecnologias das turbinas mais recentes para poder quantificá-lo. Além disso, os administradores dos parques eólicos estão plenamente cientes dos problemas de confiabilidade, mas raramente estão envolvidos no estágio de desenvolvimento. Por isso, é bom que a Siemens Gamesa tenha trazido o assunto para o domínio público, pois isso só aumentará a conscientização e melhorará a adoção de tecnologias preditivas, tornando o setor eólico ainda mais resiliente. Mas os problemas são mais devidos ao aumento da potência das turbinas ou podem estar relacionados ao descuido com a manutenção? Há quatro fatores principais que contribuem para esse cenário. O primeiro deles tem a ver com o projeto. As turbinas eólicas geralmente operam em condições muito adversas, sujeitas a turbulência e

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