e-revista Brasil Energia 482

84 Brasil Energia, nº 482, 15 de agosto de 2023 Continuação Paula Kovarsky comprando os títulos na proporção de 1/12 da meta anual a cada mês. Se essas distribuidoras comprassem seus Cbios, de forma cadenciada, para o atendimento de suas metas de 2022 até março de 2023 (ou seja, entre jan/2022 e mar/2023 e assim 6 meses antes da data final) seu custo de aquisição seria de R$ 99,00 por Cbio, com impacto ao consumidor de R$ 0,03 (três centavos) por litro de combustível vendido durante estes 15 meses. A reclamação sobre os preços atuais de Cbios sugere que, por razões que não me cabe avaliar, ou simplesmente partindo da premissa que o novo governo seguiria o mesmo padrão de ajustar metas, parte das distribuidoras foi adiando as compras de Cbios, acumulando um saldo de demanda pelos créditos, possivelmente na expectativa de que, caso os preços do Cbio voltassem a subir, o prazo de cumprimento da meta seria novamente postergado. Difícil imaginar outra razão para uma crítica tão forte de agentes privados que, em teoria, deveriam defender um mecanismo de mercado estabelecido. Sobre a parte do posicionamento dessas distribuidoras, que calculava um impacto de R$ 0,12 por litro de combustível ao consumidor por considerar apenas o volume de gasolina vendido e desconsiderando o diesel, parte integrante do programa, prefiro atribuir a uma distração ou erro de planilha. Já aceitar que, por uma razão circunstancial e em certa medida oportunista, estamos colocando em risco um programa reconhecido internacionalmente por incentivo a descarbonização, com a vantagem de diluir o custo de forma muito eficiente entre entes privados do mercado e sem onerar as contas públicas, me parece absolutamente inaceitável. O RenovaBio pode evoluir? Certamente. Um dos principais questionamentos ao nosso cap and trade tropical é que ele não gera a chamada adicionalidade de forma objetiva. Ao melhorar a rentabilidade do produtor de biocombustíveis, o país mantém o incentivo à produção, criando inclusive maior previsibilidade de preços e menor dependência dos preços de gasolina. Mas o programa poderia, por exemplo, atrelar parte do benefício a investimentos em novas plantas, aumentando a disponibilidade de biocombustíveis para substituição das alternativas fósseis. Um outro tema interessante é a certificação dos Cbios a partir dos cálculos de emissão atrelados à eficiência agrícola e operacional de cada usina. Um esforço de equiparação das premissas às calculadoras usadas internacionalmente, não necessariamente com o objetivo de mudar as nossas contas e sim, de educar o mercado sobre a qualidade dos créditos brasileiros para que eles sejam reconhecidos em mercados de carbono fora do Brasil, poderia gerar enorme valor. Time que está ganhando tem que continuar treinando duro todos os dias, buscando melhorar sempre. Mas tirar o cestinha do jogo no meio de uma partida crucial, ou tentar mudar a regra no meio do jogo, me parece coisa de técnico amador. ...educar o mercado sobre a qualidade dos créditos brasileiros para que sejam reconhecidos em mercados de carbono fora do Brasil, poderia gerar enorme valor.

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