Brasil Energia, nº 488, 20 de setembro de 2024 61 Edmar de Almeida é professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio. Escreve na Brasil Energia a cada quatro meses. Edmar de Almeida Transição Energética no Mundo e na América Latina: Ambição e Realidade No final de julho deste ano aconteceu no Rio de Janeiro a nona edição do Encontro Latino- -Americano de Economia da Energia - ELAEE. Trata-se de uma conferência que reúne a cada 2 anos especialistas que se dedicam ao estudo da Economia da Energia, vinculados à Associação Internacional de Economia da Energia – IAEE. Este evento reuniu 300 conferencistas do Brasil, países da América Latina e ainda contou com ilustres participantes de fora da região, principalmente da Europa e Estados Unidos. O tema da conferência foi: “Transição Energética, Mercados Energéticos Latino-Americanos e Caminhos de Desenvolvimento: Descarbonizando a Economia Mundial”. Antes de entrar na discussão sobre a economia da transição energética, é importante salientar que a transição energética se tornou um tema da sociedade. Ou seja, o tema agora está na agenda dos mais diversos grupos sociais e políticos e vem deixando de ser um tema para ser debatido unicamente por especialistas do assunto. As consequências do uso das energias fósseis sobre as mudanças climáticas vêm alarmando a sociedade e pautando o tema da energia. Este fenômeno de “viralização” da discussão sobre energia cria uma nova complexidade para a elaboração de políticas energéticas qualificadas, coerentes com os objetivos do trilema energético: segurança energética, equidade energética e sustantabilidade ambiental. Por isto, é fundamental qualificar o debate, colocando em evidência as incoerências e ineficiências das escolhas energéticas atuais, através de uma visão integrada, não só no que tange às mais diversas cadeias energéticas, mas também integrando as dimensões do mercado, da tecnologia e da política e regulação das atividades energéticas. Este é justamente o desafio ao qual se dedicam os especialistas em economia da energia. Algumas conclusões podem ser tiradas da conferência ELAEE 2024. Uma primeira constatação é que existe um grande gap entre as ambições apresentadas pelos países nas Conferências COPs e o que está acontecendo no terreno das indústrias e mercados de energia. As metas de descarbonização do sistema energético até 2050 anunciadas pelos países responsáveis por mais de 80% das emissões mundiais parecem irrealistas quando comparadas com o ritmo atual de descarbonização das indústrias de energia. Basicamente não seria exagero dizer que as políticas energéticas não estão entregando o que se colocou como objetivo em um dos 3 tripés do trilema energético, ou seja uma trajetória de descarbonização robusta, sustentável que aponte para uma emissão líquida zero até 2050. Para desenhar políticas energéticas que entreguem os objetivos do trilema energético é fundamental buscar o entendimento do porque as políticas atuais não estão funcionando adequadamente. Algumas pistas podem ser apontadas a partir da discussão do ELAEE 2024. Primeiramente, as políticas energéticas estão muito focadas sobre a mudança do perfil da oferta de energia e dão pouca atenção à mudança do perfil da demanda de energia. Não é difícil entender porque se dá mais atenção à oferta. Primeiro, é grande o lobby das indústrias renováveis de energia para angariar incentivos econômicos para competir com os fósseis. A premissa é que é necessário criar restrições à oferta de fontes fósseis ao mesmo tempo que se incentiva os renováveis, para viabilizar a descarbonização da economia. No contexto da transição energética, a concessão de incentivos e subsídios aos renová-
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