e-revista Brasil Energia 489

88 Brasil Energia, nº 489, 29 de novembro de 2024 Continuação Paula Kovarsky vas eficientes de descarbonização, teriam de pagar a conta, já que nenhum projeto é verdadeiramente sustentável se não for economicamente viável, ou economicamente sustentável. A COP29 começou com avanços nas discussões relativas ao Artigo 6 do Acordo de Paris, que trata do mercado global de créditos de carbono. O desafio de criar um mercado realmente global de créditos de carbono é gigantesco, especialmente num mundo que, ao menos por ora, caminha na direção inversa: de maior protecionismo, maior isolamento, friendshoring ou nearshoring de cadeias produtivas. Bancos centrais mundo afora vêm evitando a todo custo o desenvolvimento de uma criptomoeda que possa verdadeiramente unificar os fluxos financeiros internacionais de forma descentralizada. A justificativa segue sendo a volatilidade dessas moedas na ausência de um lastro físico, ou simplesmente o medo de perder o controle sobre os fluxos de capital e da soberania econômica. Talvez o mais legitimo dos argumentos seja a incapacidade de fiscalização e consequente mal uso de cripto moedas para lavagem de dinheiro. Os créditos de carbono poderiam se transformar na única moeda realmente global, viabilizando de fato o financiamento da descarbonização em escala mundial, funcionando como elo de uma agenda unificada que precisa avançar de forma coordenada para combater uma questão que afeta essencialmente a todos. Seria possível incentivar um país mais pobre a manter suas florestas em pé ao invés de desmatar para se desenvolver, plantar ou simplesmente ter o que comer. Seria possível incentivar a produção de alimentos onde o clima é mais favorável à eficiência agrícola. Seria possível produzir biocombustíveis onde as condições climáticas e agrícolas são melhores e, portanto, mais eficientes e, assim, remunerar adequadamente esses produtos ao invés de transportá-los para outros países em navios movidos a combustíveis fósseis. Bem definidas as regras de contabilização, os créditos de carbono seriam por definição ativos reais. E seria possível dar liquidez aos créditos, permitindo melhores estimativas de remuneração futura e hedge. No limite, seria realmente possível quantificar o valor futuro da descarbonização, ou o verdadeiro risco implícito em não cuidar dessa questão rápido, muito rápido. Passou o tempo das discussões acadêmicas e passou o tempo da ideologia. O mercado de capitais embarcou numa onda de investimentos verdes, mas não mostrou ainda real compromisso na forma de alocação de risco e custo de capital, em grande parte pela incapacidade de precificar corretamente o risco futuro. Os governos seguem tentando lidar com suas questões. A eleição americana trouxe incertezas sobre a continuidade da agenda de descarbonização naquele país, para dizer o mínimo. Mas desde sempre os fluxos financeiros são os grandes propulsores das grandes mudanças globais. Tratar carbono como moeda talvez seja, portanto, a única solução! Repito o final do artigo anterior, ajustando para o trocadilho: $ustentabilidade se escreve com $, é assunto sério, urgente, requer compromisso, e não vai morrer tão cedo.

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