Brasil Energia, nº 494, 27 de maio de 2025 11 mércio e para a indústria, que estão no mercado livre, poderá aumentar de 15% a 20% com esse deslocamento. Isso significa que haverá um rebatimento nos custos em todos os produtos e todos os serviços, porque esse aumento vai ser repassado. É uma ilusão achar que quando se reduz o preço de alguém sem uma discussão antes, como a que defendemos, outros não pagarão por isso. O que a Frente defende? Já há algum tempo identificamos a necessidade de uma reforma ampla, geral e irrestrita do nosso modelo setorial, e isso não veio na proposta do governo. Até tivemos a oportunidade de ter uma reunião com o presidente Lula em abril do ano passado em que defendemos que a redução do custo de energia seja feita com responsabilidade, caso contrário poderá afetar a todos os consumidores. O que faltou para que a proposta tenho sido ampla? Primeiro, é preciso discutir o arcabouço setorial que temos hoje. Ele foi construído inicialmente em 1998, depois foi reformado em 2003, no governo do presidente Lula. As bases do arcabouço foram completamente modificadas ao longo desses últimos 15 anos. A matriz elétrica hoje é completamente diferente da que nós tínhamos em 2003. O consumo é completamente diferente. Obviamente que tudo isso é positivo, houve um aumento grande do mercado livre e um aumento fabuloso do uso da geração distribuída, mas isso desarrumou todo o sistema elétrico. Então, é preciso uma discussão profunda sobre o planejamento do setor. Pode dar um exemplo? Um exemplo é que hoje a produção de energia está se dando, majoritariamente, para os novos empreendimentos no Nordeste, mas o consumo está no Sudeste, sem que a transmissão esteja conseguindo acompanhar. Com isso, estamos vivenciando esses cortes de energia enormes, provocando prejuízo para os empreendedores de eólicas e solares do Nordeste, que ficam brigando para serem ressarcidos e para que as perdas sejam transferidas para os consumidores. E esse problema, pela proposta do governo, não passa nem perto de encontrar solução. Aliás, no fundo o que a proposta da reforma faz é o mesmo: apenas redistribuir custos para os consumidores. Ouso dizer que temos o único sistema do mundo em que qualquer coisa que acontece são os consumidores que pagam. A falta de diálogo prévio com os agentes explica essas lacunas na proposta? Sim, porque se a reforma é implementada sem uma discussão mais profunda, e aí me refiro a planejamento, formação de preço, governança do setor, nós continuaremos a ter problemas. Vai resolver o problema agora desses 60 milhões que vão ter uma energia muito mais barata? Sim, mas isso não impedirá que logo atrás tenham problemas maiores. Podemos usar como exemplo as reformas pelas quais já passamos e que foram bem-sucedidas. Tanto a de 1998, do governo FHC (privatização de distribuidoras, mercado livre, separação de atividades, criação de agências), como a
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