e-revista Brasil Energia 502

Brasil Energia, nº 502, 30 de abril de 2026 41 Bruna de Souza Moraes é pesquisadora e coordenadora do Nipe/Unicamp, engenheira de Alimentos, mestre e doutora em Ciências da Engenharia. Bruna de Souza Moraes Biometano como resposta à crise do petróleo Assim como ocorreu com o etanol, importante para a frota dos leves, o biometano de aterros sanitários e dos resíduos do agro pode nos tirar da dependência do diesel importado e ser ofertado em todo o país com os corredores logísticos Os atuais conflitos no Oriente Médio vêm expondo uma vulnerabilidade estrutural do Brasil já conhecida: a dependência de combustíveis fósseis em setores críticos da economia. Se na crise de 1970 a gasolina era o problema, hoje o diesel é o protagonista. Apesar do país ser grande exportador de petróleo bruto, cerca de 25% do diesel ainda é importado. Isso significa que, mesmo com uma matriz energética diversificada, o país permanece exposto à volatilidade internacional em um insumo essencial para sua logística. Em um país de dimensões continentais e fortemente dependente do transporte rodoviário, o impacto é imediato, com aumento no custo do frete, de alimentos e inflação. Na crise de 70 a resposta brasileira com o etanol foi estratégica e estruturante: o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) deu origem a uma das indústrias de biocombustíveis mais bem-sucedidas do mundo. Sendo o segundo maior produtor mundial de etanol e o primeiro à base de cana-de-açúcar, o Brasil tem elevada penetração do biocombustível na frota leve e mistura obrigatória à gasolina, o que reduziu significativamente a dependência externa. Mas essa resposta não chegou no transporte pesado e o diesel segue como o elo mais vulnerável da matriz de transporte brasileira (apesar da mistura com o biodiesel, atualmente em 15%). É aí que outro biocombustível entra em cena como parte da resposta à nova crise: o biometano, gás renovável obtido a partir da purificação do biogás, com composição similar ao gás natural. Atualmente, os aterros sanitários são os maiores produtores de biometano no Brasil, havendo 9 unidades produtoras e 15 projetos em fase de autorização pela ANP, segundo levantamento da Abrema. A recente Lei do Combustível do Futuro impulsionou os investimentos no setor a partir dos incentivos para a substituição de combustíveis fósseis (em especial o gás natural) por renováveis, criando um nicho de mercado para o biometano estimulado pela formação de consórcios intermunicipais que permitem o uso compartilhado dos aterros. Hoje são produzidos cerca de 550 mil m3/dia de biometano no Brasil, majoritariamente a partir de resíduos urbanos. Considerando a equivalência energética aproximada (1 m3 biometano ~ 1 L de diesel), esse volume corresponde a cerca de 200 milhões litros/ano de diesel, o equivalente a 1% do diesel importado. Parece pouco, mas o biometano dos aterros é só a ponta do iceberg. Apesar de terem iniciado o mercado de biometano no país, os aterros possuem uma limitação técnica para sua expansão, além de centralizarem a produção em regiões metropolitanas. Portanto, dificilmente irão sustentar a escala necessária para ampliar a substituição do diesel. Continue lendo esse artigo em: /energia/o-biometano-como-respostabrasileira-a-nova-crise-do-petroleo

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