Brasil Energia, nº 503, 9 de junho de 2026 23 era dominada, aqui e lá fora, foi a constatação que a enorme rede de bacias hidrográficas e o relevo brasileiros não justificavam gastos com bombeamento. Bastava o imenso potencial de geração hidrelétrica convencional que, de fato, foi a base da industrialização do país, especialmente a partir da década de 1950. A tecnologia das UHRs adormeceu nas prateleiras da engenharia elétrica mundial e, principalmente, da brasileira, até porque o balanço entre o custo do bombeamento e o posterior turbinamento da água bombeada para cima era negativo entre a energia gasta e a gerada. Este aspecto ganhou preponderância ainda maior a partir da década de 1990, quando a geração elétrica no país se tornou um negócio progressivamente privado, com retorno obrigatório. Mas o avanço tecnológico representado pelo desenvolvimento vertiginoso da geração elétrica solar e eólica, impulsionado pelas crises do petróleo da década de 1970, levou o mundo a varrer a poeira das prateleiras e resgatar os projetos de UHRs como uma das alternativas para suprir a característica intermitente dessas fontes via armazenamento de energia na forma de água, além de suprir os sistemas de outros serviços essenciais, como inércia e partida instantânea. UHRs no mundo De acordo com dados da International Hydropower Association (IHA), a capacidade instalada em reversíveis fechou 2024, último dado disponível, com 189 GW, tendo aumentado 8,4 GW em relação a 2023, praticamente uma nova UHE Tucuruí (8,37 GW). Dessa capacidade, 7,75 GW foram construídos na China, país que lidera de longe esta estatística, com cerca de 62 GW de UHRs em operação, mais da metade da capacidade hidrelétrica convencional brasileira (cerca de 112 GW). Além disso, os dados da IHA mostram que existem no mundo 104,6 GW de UHRs em construção, praticamente o mesmo que a atual capacidade brasileira em grandes hidrelétricas convencionais (cerca de 103 GW), sendo 94,9 GW no Leste da Ásia, onde está a China, e Pacífico. Há ainda 156,8 GW aprovados pelos órgãos reguladores, sendo 137,9 GW no Leste da Ásia e Pacífico e outros 182,7 GW planejados, sendo 81,5 GW no Leste da Ásia e Pacífico, 61,8 GW na América do Norte e Central e 31,2 na Europa. UHRs no Brasil O Brasil, apesar de estudos que vêm sendo desenvolvidos pela EPE e por outras instituições desde meados da década passada, ainda está à margem dessa corrida. Mas o ponto de largada parece ter sido definido no começo de abril, quando o CNPE anunciou resolução estabelecendo diretrizes para a contratação de Sistemas de Armazenamento Hidráulico (SAHs), que são as UHRs, por intermédio de leilões e com remuneração fixa para dar previsibilidade ao investimento, nos moldes, por exemplo, dos recentes leilões de potência (LRCAPs). Um estudo concluído em agosto de 2024 por um grupo de instituições coordenado pelo Gesel/UFRJ identificou que existem no Brasil nada menos do que 5,5 mil possíveis locais para instalação de UHRs, apenas no formato de um reservatório superior ligado a outro já existente.
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=