e-revista Brasil Energia 505

Brasil Energia, nº 505, 31 de julho de 2026 53 Enquanto diversos países procuram reduzir sua exposição aos preços spots de GNL, mediante contratos de longo prazo e maior diversificação de fornecedores, o Brasil continua convivendo com elevados preços internos mesmo dispondo de abundantes reservas nacionais Guerras, volatilidade no mercado de gás e impactos para o Brasil A guerra Rússia-Ucrânia em 2022 marcou uma ruptura estrutural no mercado internacional de gás natural. Até então, a Europa dependia fortemente do gás russo, com preços relativamente estáveis. A interrupção gradual desses fluxos provocou uma corrida global por cargas de GNL, elevando os preços nos principais hubs internacionais a níveis históricos. O hub europeu TTF registrou preços superiores a $100/MMBtu no auge da crise de 2022, enquanto o JKM, referência para o mercado asiático de GNL, ultrapassou $60/MMBtu. Nos Estados Unidos, embora o Henry Hub tenha permanecido significativamente abaixo dos níveis europeus e asiáticos, devido à abundante produção doméstica, também experimentou forte valorização, alcançando patamares próximos de $10/MMBtu. A partir de 2023, iniciou-se um processo gradual de normalização. A destruição de demanda na indústria europeia, o aumento das importações de GNL por terminais recém- -construídos na Europa e a expectativa de entrada em operação de uma grande onda de novos projetos de liquefação nos Estados Unidos, Catar, Canadá, México e África levaram analistas a projetar um cenário de excesso de oferta em 2026-2027, com estimativas de que mais de 200 bilhões de m3/ano de nova capacidade entrariam no mercado nesse período. Esperava-se, portanto, uma convergência dos preços internacionais para níveis significativamente inferiores aos registrados no início da guerra. Essa expectativa foi profundamente alterada pelo conflito EUA/Irã em 2026, que afetou diretamente o Golfo Pérsico, por onde transitam 20% de todo o comércio mundial de GNL via Estreito de Ormuz. Além dos riscos à navegação, ocorreram interrupções na produção e na logística do Catar e Abu Dhabi. Caso o estrangulamento continue até o final de 2026, a oferta de GNL deverá cair em pelo menos 110 bilhões de m3. A Agência Internacional de Energia concluiu que o mercado, que vinha apresentando sinais de afrouxamento desde o segundo semestre de 2025, voltou a uma situação de aperto estrutural. Os reflexos foram imediatos. Os preços do JKM voltaram a superar os europeus, refletindo a maior exposição da Ásia às interrupções do Golfo. A volatilidade aumentou significativamente, enquanto a Europa voltou a competir agressivamente por cargas de GNL para recompor seus estoques antes do inverno. No momento, os preços internacionais estão se mantendo altos, mas inferiores a 2022 ($15-18/MMBtu), devido à destruição de demanda, fuel swicht e estoques europeus relativamente elevados. Para o Brasil, esses preços são muito altos e os impactos são relevantes, Ieda Gomes é consultora independente e membro do conselho de administração de empresas internacionais de energia, infraestrutura e certificação. Escreve na Brasil Energia a cada quatro meses. Ieda Gomes

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