Brasil Energia | Ed. 455 - Fevereiro, 2019

72 Brasil Energia , nº 455, 1 de fevereiro de 2019 ENTREVISTA COM PRESIDENTE DA CCIBC CHARLES TANG vestindo no Comperj e a Kerui Petroleum na unidade de gás. São iniciativas que vão gerar muitos empregos e riqueza para o Brasil. Com a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, co- nhecido como banco dos BRICs, o Brasil terá fácil acesso a financiamento para projetos de infraestrutura? Claro que sim. O presidente Xi Jinping será lem- brado como líder chinês que consolidou a lideran- ça mundial da China. Também porque o presidente Donald Trump está entregando isso aos chineses. Es- tão se isolando, se retirando do mundo, que passou a olhar para a segunda potência econômica mundial. Durante muitas décadas, a China, como maior cre- dora do mundo, não conseguia ter uma voz ativa no sistema financeiro mundial, que é controlado pelos maiores devedores do mundo, com exceção da Ale- manha. O Brasil, a China, a Rússia e a Índia não ti- nham voz. Então, Xi Jinping teve a visão de pegar o acrônimo BRIC e transformar em um bloco eco- nômico e político, gerando a formação do banco. A China está montando outro sistema financeiro mun- dial. Além do banco dos BRICs, tem o Banco Asiá- tico de Investimento em Infraestrutura (AIIB, na si- gla em inglês), os fundos multilaterais e binacionais, como o fundo Brasil-China, que tem US$ 20 bilhões de investimento, com 75% pelo governo chinês, mas a administração é meio a meio. E quais são os principais obstáculos para se fazer negó- cios com o Brasil? O Brasil não é muito “business friendly”. Aliás, é bastante “unfriendly”. Mas acho que, com o pro- fessor Paulo Guedes, o governo Bolsonaro escolheu pessoas muito boas e competentes, com uma visão mais esclarecida. E mesmo em relação à China, vá- rios dos ministros recém-nomeados falaram que a China é um grande parceiro importante. Então, a vi- são de reduzir o custo e o tamanho do governo bra- sileiro, isso vai ajudar. A reforma previdenciária e, se possível, a reforma fiscal, continuação da reforma trabalhista, são medidas que tornarão o Brasil mais amigável a negócios. Como não tem poupança inter- na suficiente para financiar o avanço econômico, de- pendemos de capital estrangeiro. A Câmara prepara os empresários brasileiros e chineses para fazerem negócios, já que as culturas de ambos os la- dos são muito diferentes? De fato, a visão brasileira e a visão chinesa são mui- to diferentes, inclusive quanto à prosperidade. A China, durante 30 anos – e isso só terminou na crise de 2009 – para conquistar capital estrangeiro, discriminava a in- dústria nacional chinesa. Estrangeiros pagavam 10% menos de imposto de renda. Todo empresário chinês queria ter um sócio estrangeiro para poder pagar menos imposto. E não é só isso. O chinês pensa: “o estrangeiro traz seu capital, gera emprego, traz tecnologia, ensina es- sa tecnologia, traz métodos de administração modernos para ensinar executivos chineses; constrói tudo, um dia vai embora e fica tudo nosso”. Enquanto aqui no Brasil, o país tem medo do investimento estrangeiro. Qual é, então, a principal diferença no modo de fazer negócios? Quando a China abriu seu mercado para o mundo, os norte-americanos não entendiam porque a melhor proposta ou melhor preço não ganhavam negócios. É porque, muitas vezes, não tinham o melhor guan- xi, que é o relacionamento. É preciso entender que a China, durante cinco mil anos, foi um império e depois viveu períodos de muita turbulência e transformações. Então, para se proteger, o chinês prefere fazer negócio com quem ele conhece e tem confiança. Isso é guanxi . No mundo inteiro, o relacionamento é importante, mas a China tem milhares de anos de tradição nisso. Então, se você for fazer negócio com chineses, eles vão te con- vidar para jantar, beber juntos etc., porque eles querem te conhecer. É diferente também do modo de atuar dos norte-americanos, que querem investir e ter “lucro pa- ra ontem”. A visão chinesa é mais estratégica. Isso quer dizer que os empresários brasileiros não podem querer ter pressa em fechar negócios com empresas chinesas? Não necessariamente. Se amanhã o presiden- te eleito Jair Bolsonaro disser: “olha, o investimen- to chinês é muito bem-vindo porque ajuda o Brasil”, aí não vai demorar muito, não. A presença chinesa é benéfica para o Brasil. Acho que tanto o comércio como o investimento ajudaram muito o nosso país. Sou brasileiro por opção. n

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