Brasil Energia | Ed. 458 - Agosto, 2019
Brasil Energia , nº 458, 9 de agosto de 2019 77 Claudio J. D. Sales e Eduardo Müller Monteiro são Presidente e Diretor Executivo do Instituto Acende Brasil (www.acendebrasil.com.br) Claudio Sales e Eduardo Monteiro Durante décadas se comentou que o setor elétrico era muito tradicional, com poucas rupturas de paradigmas tecnológicos, sem grandes alterações na sua cadeia de valor, muito menos nos seus modelos de negócio. No entanto, a estrutura “geração centralizada em grandes usinas, transmissão por longas distâncias, dis- tribuição dos elétrons conduzida por concessionárias em áreas geográficas que não competem entre si, e con- sumidor passivo que só paga a conta” está sendo inten- samente desafiada. Nos próximos anos o setor elétrico passará por grandes transformações. A inserção de geração distri- buída, de veículos elétricos, de baterias e de equipa- mentos dotados de interconexão digital (“Internet das Coisas”) alterarão o perfil da produção e do consumo de energia elétrica, e a ampliação da liberdade de esco- lha por parte do consumidor viabilizará mais concor- rência e mais inovação. Tais transformações exigirão mudanças em toda a ca- deia de valor do setor, entre as quais: (a) a capacidade de gerar energia de forma flexível, sob demanda, e de prestar serviços auxiliares; (b) o padrão de operação horossazonal precisará ser incorporado ao planejamento da expansão em função do aumento de participação de fontes renová- veis variáveis na matriz elétrica; (c) as redes de transmis- são e distribuição terão que ser modernizadas para lidar com um padrão mais variável e bidirecional de fluxos elé- tricos; (d) as distribuidoras poderão assumir umpapel ca- da vez mais importante na coordenação da operação local e como DSOs (“ Distribution System Operators ”); e (e) as distribuidoras, os comercializadores e os fornecedores po- derão oferecer novos produtos e serviços. Em função da alta complexidade, interdependência e simultaneidade dos fenômenos acima, pode ser sau- dável estruturar a discussão dos novos panoramas tec- nológicos, regulatórios e empresariais do setor elétrico a partir de duas perspectivas. A primeira perspectiva se refere à oferta de energia, e aqui surgem algumas perguntas fundamentais. Afi- nal, qual é a perspectiva para a expansão da geração centralizada, cujos modelos estão na “zona de confor- to” de nossos formuladores de políticas públicas, mas precisam ser repensados? A geração distribuída ocupa- rá quais espaços e com qual velocidade, impondo quais desafios para o planejamento, a operação e a regulação tarifária? Como o planejamento e a operação precisa- rão se adaptar para lidar com a nova configuração do sistema? Quais adequações serão necessárias nas redes para acomodar esta nova realidade? Já a segunda perspectiva incorpora o novo prota- gonismo do lado da demanda ao repensar o papel dos consumidores do futuro diante das novas opções de oferta e consumo. A introdução da figura de prossu- midor (consumidor que também produz eletricida- de) imporá quais pressões sobre os agentes de gera- ção, transmissão, distribuição e comercialização? Quais mudanças regulatórias precisarão ser feitas para mini- mizar instabilidades indesejáveis? Alguns ainda resistem em visualizar os novos tem- pos, mas o futuro do setor elétrico já chegou e o me- lhor que podemos fazer é nos anteciparmos aos cho- ques que virão com força crescente. SETOR ELÉTRICO E O FUTURO QUE JÁ CHEGOU A inserção de geração distribuída, de veículos elétricos, de baterias e da “Internet das Coisas” alterarão o perfil da produção e do consumo de energia elétrica
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