Brasil Energia | Ed. 460 - Novembro, 2019

24 Brasil Energia , nº 460, 14 de novembro de 2019 HÍDRICA de operativa de curto prazo. Sem- pre ressaltando a preponderância das análises de viabilidade, a técni- ca cita entre as alternativas para su- primento de potência as térmicas a gás de ciclo aberto, as reversíveis e as baterias. UM PROBLEMA DE POTÊNCIA Com sua vasta experiência de ex-diretor geral da Aneel, ex-pre- sidente da ANA e de importan- tes empresas dos setores de água e energia, o professor da UFRJ Jer- son Kelman não despreza a im- portância das grandes hidrelétri- cas a fio d’água da Amazônia para o funcionamento do SIN, ressal- tando que ao permitir a economia de água dos reservatórios no perí- odo de cheias elas fazem na reali- dade uma “transferência virtual” de água para o Sudeste, permitin- do que esta região acumule para o período seco. O problema, analisa, é que, da mesma forma que as eólicas e as solares, as usinas a fio d’água não asseguram potência para atender a demanda instantânea, gerando um problema que vai precisar ser resol- vido. “Até há pouco o problema de potência era irrelevante no Brasil”, disse, ressaltando que o parque hi- drelétrico, assentado em grandes reservatórios, era mais que sufi- ciente para atender a demanda na média e na ponta. “A potência ins- talada era muito maior do que a de- manda”, explica. Kelman avalia que uma das soluções para a potência é a usi- na reversível, que poderia evitar o desperdício nos períodos de baixa demanda e ainda assegu- rar potência para atender os pi- cos de consumo. Segundo ele, a topografia brasileira favorece a construção de reversíveis e o pa- ís está se equipando com solu- ções tecnológicas para encon- trar as melhores localizações pa- ra essas usinas, citando a ferra- menta Hera, recentemente apre- sentada pela PSR. O coordenador de Geração e Mercados do Gesel/UFRJ, Rober- to Brandão, também reconhece os prejuízos que o Brasil passou a enfrentar em termos de potên- cia elétrica ao abrir mão de cons- truir hidrelétricas com reser- vatórios, embora reconheça as crescentes dificuldades enfrenta- das na região Norte, onde ainda existe potencial. “Fizemos as melhores [usinas] primeiro”, diz, explicando que o retrato da geração exposto pe- lo levantamento aqui apresenta- do reflete exatamente essa esco- lha. Brandão lamenta ainda que a hidrologia negativa que vem se repetindo ano a ano desde 2012, com exceção de 2016, contribuiu para agravar as dificuldades e evi- denciar o problema de potência que o país terá que enfrentar se não encontrar uma alternativa às usinas com reservatórios. Embora ainda veja perspecti- va para reservatórios no aprovei- tamento do Tapajós, um rio que parecia descartado, mas que vem aparecendo novamente no de- bate, Brandão também defende as hidrelétricas reversíveis como uma das alternativas viáveis para esse problema de potência. Ele es- tá coordenando desde agosto, pe- lo Gesel, uma pesquisa patroci- nada por várias empresas priva- das que busca identificar, em 24 meses, o potencial e a viabilidade técnica, econômica e financeira dessa alternativa. Defensor ferrenho das hidrelé- tricas com reservatórios, o expe- riente engenheiro Paulo Cézar Ta- vares (ex-Chesf e ex-CPFL, entre outras), presidente da comerciali- zadora Sol Energias, ressalta que a mudança do projeto de Belo Mon- te, de reservatório para fio d’água, impediu que a usina tivesse uma energia assegurada de 9 mil MW (a garantia firme de Belo Mon- te é 4.571 MWmed). O especialis- ta atribui a mudança de estraté- gia para as usinas da região Nor- te a “falta de visão estratégica as- sociada às pressões das ONGs eu- ropeias”. Tavares ressalta que ao abrir mão de novos reservatórios o Bra- sil depreciou sua capacidade de armazenamento que, com a atu- al demanda, mesmo com a econo- mia estagnada, “não passa de qua- tro meses”. Na sua avaliação, o de- sastre da hidrelétrica de Balbina, no Amazonas (um reservatório de 2.360 km2 para uma capacida- de instalada de 250 MW), reforçou o argumento do custo ambiental contra os reservatórios. Para o engenheiro, ao descar- tar o diferencial que lhe foi da- do pela natureza, o Brasil ficou à mercê de soluções caras e impor- tadas para suprir sua necessida- de de potência, como as baterias. Tavares é reticente quanto à solu- ção das hidrelétricas reversíveis para o país, destacando a neces- sidade de haver localizações sufi- cientemente elevadas para permi- tir a construção de um reservató- rio superior e um inferior. “Não é uma solução técnica e economi- camente fácil”, pondera. n

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