Brasil Energia | Ed. 461 - Fevereiro, 2020
Brasil Energia , nº 461, 15 de fevereiro de 2020 35 Rodrigo Leão Rodrigo Leão é economista, mestre em Desenvolvimento Econômico, pesquisador do INEEP e do NEC/UFBa COM AUMENTO DE OFERTA, USO DO GÁS NATURAL É ESTRATÉGICO Nas últimas semanas, duas notícias chamaram a atenção da indústria de gás natural e fertilizantes no Brasil. Por um lado, em dezembro de 2019, a produ- ção de gás natural atingiu seu recorde histórico, com 137 milhões de metros cúbicos por dia, o que significou um crescimento de mais de 20% em relação ao mesmo período de 2018. Por outro, a Petrobras anunciou a hi- bernação da Fábrica de Fertilizantes (Fafen) de Arau- cária no Paraná, a exemplo do que já havia feito com as outras Fafens em 2018. Mas qual é a relação entre esses dois episódios? A relação se encontra no fato de o gás natural ser o principal insumo na produção dos fertilizantes nitro- genados e o maior componente do seu custo produti- vo, representando entre 70% e 75% no caso da ureia. Por trás desses episódios, apresenta-se um desafio de médio prazo para a indústria do gás natural: a utili- zação da produção da camada do pré-sal, que se expan- dirá nos próximos anos. Uma parte significativa da produção diária – 137 milhões de metros cúbicos de gás natural, no final de 2019 – foi reinjetada (52 milhões de metros cúbicos). Uma parcela inferior foi consumida pelas unidades de produção (14 milhões de metros cúbicos) ou foi quei- mada (4 milhões de metros cúbicos). Ainda assim, fi- caram disponíveis para serem utilizados pelo mercado cerca de 66 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural. Segundo estimativas da Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE), até 2029, a disponibilidade de gás natural deve mais do que duplicar, atingindo os 138 milhões de metros cúbicos por dia. Apesar das boas perspectivas de produção, há um enorme desafio para o escoamento do gás natural. Atu- almente o Brasil conta com uma limitada malha de ga- sodutos e 15 unidades de processamento de gás natural (UPGNs). Sem novos investimentos em infraestrutura, há o risco de que uma fração importante do gás natural disponível não seja aproveitada. Além disso, outro desafio é o uso do gás natural. Nesse sentido, o setor de fertilizantes nitrogenados é um dos que apresenta grandes potencialidades no mer- cado brasileiro. Um outro estudo da mesma EPE projeta que até 2034, em razão do crescimento da produção agrícola, a demanda do Brasil por ureia deve crescer mais de 50%, o que representa um acréscimo de 3 milhões de tonela- das por ano. Somando a isso o volume de importações (cerca de 9 milhões de toneladas em 2018), o estudo conclui que há uma demanda potencial para a cons- trução de cinco novas fábricas de fertilizantes no Bra- sil na próxima década. Além de reduzir a dependência de importações de ureia, o país poderia aproveitar uma parcela relevante do gás natural produzido no pré-sal. Mesmo com essas oportunidades, a Petrobras já si- nalizou sua saída completa do setor de fertilizantes. E a entrada de novas petrolíferas na produção de gás natu- ral não tem ocorrido de maneira verticalizando as duas atividades. Ou seja, as operadoras dos campos de pe- tróleo e gás natural não têm apresentado interesse em investir no setor de fertilizantes. Cabe notar, por exemplo, que outras operadoras, principalmente na China e na Rússia, têm integrado a cadeia de gás natural à de fertilizantes. A chinesa Sino- chem, por exemplo, possui 14 plantas de fertilizantes espalhadas pelo país e investe crescentemente na explo- ração de gás natural. A abertura, embora importante para atrair novos investimentos para o setor de gás natural, tende a se concentrar nas atividades de exploração e produção. A industrialização deste insumo depende e dependerá de um projeto estruturante e com atores que se dispo- nham a participar no longo prazo.
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=