Brasil Energia | Ed. 464 - Agosto, 2020

24 Brasil Energia , nº 464, 31 de agosto de 2020 DISTRIBUIÇÃO tentativa de colocar o setor em sus- tentáveis. Ainda no campo das novas fontes de receita, há a possibilida- de, segundo o consultor regula- tório da Abradee, José Santos, de que as distribuidoras – median- te mudanças na legislação – ve- nham, em futuro próximo, ofe- recer suas redes como suporte a projetos de smart cities que co- meçam, ainda que lentamente, a sair das pranchetas dos especialis- tas em urbanismo. Automação de semáforos, detectores de presen- ça, controle de intensidade de ilu- minação pública são algumas das funcionalidades que poderão ser implantadas, a partir da locação da infraestrutura elétrica existen- te, poupando milhões em recur- sos às municipalidades. As pró- prias distribuidoras poderão, em tese, agregar mais valor ao seu ne- gócio, fornecer pacotes completos em concorrências públicas, com a vantagem de possuir conheci- mento completo sobre as particu- laridades dos locais onde atuam. DESAFIOS: MUITO ALÉM DA COVID-19 Como a realidade nunca é 100% positiva, em contrapartida a es- te cenário otimista, é mais do que prudente e necessário avaliar as barreiras e dificuldades que podem jogar contra a toda essa nova fron- teira potencial. A começar pelo próprio pano- rama sombrio e cercado de incer- tezas que a crise econômica vem formando e que será, ainda por um longo e indeterminado período, marcado pelo espectro da pande- mia de covid-19. Estudo recente divulgado pela consultoria Roland Berger (“Co- vid-19, efeitos de médio prazo, ameaças e oportunidades”) sugere que no caso brasileiro o “consenso é de uma queda maior que a mé- dia global e recuperação lenta”. A queda no consumo pode ser de até 6,7%. O lado positivo do estudo é que também são apontadas opor- tunidades e requisitos. Em meio a esse contexto e com uma postura bastante cautelosa, que a experiência prática, como di- retora da Aneel – no período de 2005 a 2009 - ajudou a formar, a professora Joísa Dutra, diretora do FGV CERI, tem uma visão bastan- te crítica do momento atual do se- tor elétrico. Na opinião dela o ambiente atual não está propício ainda para uma discussão mais séria e funda- mentada sobre a abertura do mer- cado. A especialista avalia que há muitas iniciativas acontecendo ao mesmo tempo e que o principal risco desse cenário é uma amea- ça de desorganização, com perda irreparável de importantes pilares regulatórios conquistados à custa de muito trabalho. “É preciso fazer, organizada- mente, a separação da comerciali- zação, da distribuição. Isto é urgen- te”, recomenda, alertando, porém que não é possível trabalhar num contexto de “liberalização total”. Joísa enxerga uma movimen- tação pressionada, principalmen- te, pelo perfil liberalizante do atual governo federal, o que pode levar a caminhos equivocados. Ela cita, como exemplo, a situ- ação da Califórnia, às voltas, mais uma vez, com problemas de abas- tecimento de energia num cenário aterrorizante de novos e devastado- res focos de incêndio. Mais do que a tese, que vem sendo muito debati- da, de uma transição rápida demais para fontes renováveis, o que esta- ria causando um desequilíbrio no abastecimento, já que o ímpeto por descarbonização da matriz reduziu demais o suporte da fonte térmica, ela identifica na desorganização re- gulatória a origem principal da ca- ótica situação atual do estado ame- ricano. Algo que, alerta, não se des- carta se repetir no Brasil, no pior dos cenários. n As distribuidoras não têm estímulo para desenvolver novas fontes de receita com uma regulação que repassa parte do resultado financeiro à modicidade tarifária

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