Brasil Energia | Ed. 465 - Outubro, 2020

28 Brasil Energia , nº 465, 31 de outubro de 2020 GÁS dos equipamentos que hoje con- somem esse combustível”, afirmou em nota. Muito mais do que o combustí- vel da transição, o gás é a matéria- -prima da química no século XXI. Acossada pelos preços do insumo, um de seus vilões, a química bra- sileira sofreu um desmonte nos úl- timos cinco anos. O exemplo que melhor ilustra a fragilidade de su- as condições competitivas é a im- portação do metanol. Desde 2016, quando a Copenor encerrou a pro- dução própria de metanol e passou a consumir o produto importado, o país passou a importar 100% da matéria-prima de países como Tri- nidad e Tobago, Chile e Venezuela. Um desvio estratégico, por assim dizer, já que o Brasil é o maior pro- dutor mundial de biodiesel via ro- ta metílica. O mesmo acontece em relação aos fertilizantes nitrogenados, de- rivados da amônia. A despeito de ser protagonista no agronegócio, o Brasil quase dobrou em dez anos o volume de suas importações. Atu- almente, a sua dependência externa gira em torno de 80%. Em setem- bro de 2020, segundo a Abiquim, as compras de intermediários para fertilizantes totalizaram US$ 716,7 milhões, valor ligeiramente inferior às exportações de produtos quími- cos brasileiros no mesmo período, que somaram US$ 871,4 milhões. Em ambos os casos, o do meta- nol e da amônia, os custos do gás chegaram a representar 80% dos seus custos de produção. Mesmo a Yara, uma das maiores fabrican- tes de fertilizantes do mundo, que possui uma fábrica de amônia em Cubatão (SP), já cogitou paralisar suas atividades em razão dos altos preços do insumo. Em 2019, re- velou Daniel Hubner, vice-presi- dente de Base Chemicals da Yara, a amônia produzida pela empresa no Brasil passou a custar o dobro da importada. Além do gargalo do preço do gás, as vantagens tributá- rias conferidas às importações do produto dificultaram as suas ope- rações no Brasil. “O custo variável do gás é mui- to alto. Por mais que se aumente a eficiência da planta, é uma bar- reira quase instransponível. Não à toa a Petrobras hibernou as su- as fábricas de fertilizantes”, disse Hubner. Ainda segundo o execu- tivo, embora o preço do gás tenha acompanhado a queda do Brent no mercado internacional, o pre- ço do insumo permanece mais ca- ro no Brasil do que em outros pa- íses, o que torna a indústria me- nos competitiva. Do outro lado, o das petrolei- ras, enquanto a vigência da Reso- lução ANP 16/2008 persistir, elas estarão submetidas à regulação que as obriga a realizar o proces- so de separação química do gás. Terão, portanto, que expandir a infraestrutura de processamento existente. Entre as 14 UPGNs da Petrobras, nem todas possuem a tecnologia de turboexpansão ne- cessária à realização do proces- so. Hoje, apenas a UPGN de Ca- biúnas, que abastece a Unib-4 da Braskem, em Duque de Caxias (RJ), faz a separação do etano. Por isso, um passo importante, tanto para o lado da oferta quan- to da demanda, foi o recente acor- do firmado entre a Petrobras e su- as parceiras para o compartilha- mento das infraestruturas essen- ciais do gás. Para a ex-diretora geral da ANP, Magda Chambriard, atu- al coordenadora de Pesquisa de O&G da FGV Energia, as petro- leiras têm necessidade de colocar o gás do pré-sal no mercado. En- tão, em sua opinião, devem assu- mir os custos da separação dos hidrocarbonetos. “Com dificul- dade para sobreviver, a indústria paga caro pela molécula, o trans- porte e a distribuição. Como o consumidor industrial vai pagar mais?”, indagou. No dito popular, “onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Independente do lado que a balança possa pender, uma coisa é certa: gás não falta. n Tanto no caso do metanol quanto da amônia, o gás chega a representar 80% dos seus custos de produção.

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