Brasil Energia | Ed. 468 - Abril, 2021
Brasil Energia , nº 468, 5 de abril de 2021 45 Adrianno Lorenzon Adrianno Lorenzon é engenheiro eletricista, especialista em regulação de gás e gerente de Gás Natural da Abrace. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. PERSPECTIVAS PARA O PREÇO DE GÁS NATURAL EM 2021 O preço de gás natural no país está atrelado ao preço do petróleo (tipo brent, em dólar) e ao câmbio (para conversão ao real). Esta é a lógica que rege a maior parte dos contratos entre Petrobras e distribuidoras de gás natural e correspon- de por quase o total do volume de gás que chega ao con- sumidor final. Existem movimentos pelas distribuidoras em busca de alternativas, mas ainda não tem representativida- de no volume comercializado ao mercado. Sendo assim, as projeções de preço para o mercado brasileiro passam neces- sariamente por estimativas de preço de petróleo e câmbio. No mundo,mercados mais desenvolvidos definem o pre- ço com base nas leis de mercado do gás natural (oferta x de- manda). Segundo levantamento da International Gas Union, o volume de gás consumido cujo preço é indexado ao óleo vem perdendo terreno e representou em 2019 18,5% do gás total consumido. A precificação “Gas on Gas competi- tion” já corresponde a quase metade do consumo global. Por aqui, enquanto caminhamos rumo a maturidade do mercado, obedecemos a lógica imposta pela Petrobras de precificação indexada ao petróleo ou seus derivados. A em- presa alterou os contratos com as distribuidoras a partir de 2019, aplicando o chamado contrato Novo Mercado de Gás (NMG), indexando diretamente ao brent. Até então, os pre- ços eram indexados a uma cesta de óleos combustível. Durante o auge da pandemia, os mercados onde o gás compete com o próprio gás responderam mais rápido. O preço se ajustou à queda da demanda, impulsionando o re- torno do consumo. Basta comparar os preços negociados no hub holandês TTF, o maior da Europa com o contrato NMG brasileiro, atrelado ao petróleo. O dinamismo daquele mer- cado já dava sinais de preços de redução desde 2019 e per- mitiu que os consumidores usufruíssem de um preço baixo num momento de extrema pressão financeira. No caso bra- sileiro, mesmo com a desvalorização do câmbio em paralelo à queda acentuada do petróleo, não se observou a queda no preço final do gás no mesmo nível do país europeu. Emmaio de 2020, o preço holandês (TFF) chegou a US$ 1,58/MMBTU, enquanto no Brasil, a queda foi menos acen- tuada, o menor valor registrado foi de US$ 3,50/MMBTU. Apesar do preço do gás natural ter componentes regionais fortes, infere-se que o preço praticado no país em 2020 foi majorado comparando com um cenário de mercado aberto. Numa simples simulação, se considerarmos o preço brasilei- ro igual ao TFF europeu, os consumidores teriam economi- zado mais de R$ 7 bilhões neste ano. Em 2021, ao que tudo indica, seguiremos com o preço do gás atrelado ao Brent, com tendência de alta. O reflexo deste aumento será sentido nomercado brasileiro a partir de maio quando são repassados os preços de petróleo do 1º trimestre. Utilizando um câmbio médio de R$ 5,10/US$ para este ano, os preços nacionais devem se aproximar de US$ 7/MMBTU, acréscimo de 25%em relação a dezembro/20. Inflação também afeta os preços, e o preço do gás não é a única pressão sobre o custo final que chega aos consumido- res.As outras parcelas que formam o custo – transporte e dis- tribuição – também sofrerão forte pressão devido ao pico do IGP-M no 2º semestre de 2020. O índice inflacionário fechou 2020 em 23% e serve de base para o reajuste da parcela de transporte que compõe a tarifa e para margem de distribui- ção em importantes estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Desta forma, o custo final do gás para indús- tria brasileira chegará na casa de US$ 12/ MMBTU, quase o dobro daquele visto na Europa (US$ 7,3/MMBTU em 2019) e o triplo em relação aos Estados Unidos (US$ 3,75 em 2019). Devemos aproveitar o ano de 2021 para acelerar o pas- so no caminho da maturidade do mercado de gás. Isso pas- sa necessariamente pela aprovação da nova lei do gás (PL 4476/2020) e pela implementação de medidas infralegais para acesso às infraestruturas (transporte, processamento e escoamento). Apenas desta forma, podemos olhar para o horizonte com projeções mais animadoras para os consumi- dores industriais de gás natural.
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