Brasil Energia | Ed. 472 - Dezembro, 2021
46 Brasil Energia , nº 472, 6 de dezembro de 2021 ENTREVISTA ADRIANA VERCHAI DE LIMA LOBO e não foram abertas novas concessões pa- ra grandes usinas com reservatórios de acu- mulação. As últimas usinas de grande porte, Santo Antônio, Jirau e Belo Monte, são a fio d’água, ou seja, dependem das vazões nos rios. Se o rio seca a UHE não produz. Além de não gerar energia em épocas de estia- gem ou seca severas, não contribuem pa- ra o amortecimento ou contenção de cheias na região. A demanda por água e energia aumentou drasticamente com aumento da população brasileira, mas a formação dos grandes reservatórios de acumulação, que trazem resiliência ao sistema, não acom- panhou esta demanda. Usinas como Belo Monte, cujos projetos originais contempla- vam grandes reservatórios de acumulação, devido a dificuldades no licenciamento e a um emaranhado legal, acabaram construí- das a fio d’água, perdendo-se assim o ob- jetivo principal. Outro exemplo é o de uma parceria prevista entre Brasil e Bolívia para um grande projeto hídrico no rio Mamoré que acabou não acontecendo. Como enfrentar esse desafio, considerando os interesses conflitantes? Toda obra de engenharia de grande porte traz custos e benefícios para a sociedade, jun- to com efeitos ambientais e riscos. Estes po- dem ser eliminados, minimizados e/ou mitiga- dos, mas aceitos ou não pela sociedade dian- te do custo-benefício para a população de ci- dades, regiões ou países. O aproveitamento dos recursos hídricos e seus usos múltiplos são naturalmente confli- tantes entre si. A compatibilização desses in- teresses assume aspectos sociais, culturais, político-institucionais e de meio ambiente. É uma tarefa multidisciplinar que requer pro- cedimentos, normas, resoluções que ultra- passam os limites da engenharia. Tarefa essa complexa para gestores públicos, arquitetos e engenheiros urbanistas, e reguladores do recurso hídrico. É primordial, ainda na fase planejamento de engenharia, considerar no projeto a futura operação e usos múltiplos, com a visão holística da bacia hidrográfica, contemplando usos existentes e futuros, in- terferências que possam ocorrer na vida útil do reservatório, manancial ou rio. Para resu- mir, os recursos hídricos são dependentes, hidrologicamente, das mudanças climáticas, das estruturas a montante e de regras ope- rativas, buscando maior e melhor uso-custo- -benefício compartilhado. Muitos especialistas do setor elétrico dizem que mais do que a outorga para outros usos, a retirada clandestina é a maior responsável pe- O aproveitamento dos recursos hídricos e seus usos múltiplos são naturalmente conflitantes entre si
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDExNzM=