Brasil Energia | Ed. 476 - Agosto, 2022
24 Brasil Energia , nº 476, 1 de agosto de 2022 Telmo Ghiorzi entre exploraçãode recursos naturais edesenvolvimento industrial. Ao contrário, ambas as rotas podem e devem coexistir. O combate ao Paradoxo da Abundância deve ter como ferra- menta principal o desenvolvimento no país das competências ne- cessárias para desenvolver tecnologias em vez das competências para meramente fabricar e usar estas tecnologias. É preciso ter o acúmulo de conhecimentos necessários para conceber, desenhar, especificar, fabricar e usar bens e serviços industriais que sejam di- versificados,de alta sofisticação e complexidade tecnológica,e que busquem cobrir a demanda interna e sobretudo a externa, sem deixar de lado a exploração racional dos recursos naturais. As pesquisas convergem para que se evite o princípio das vantagens comparativas. Explorar e ficar restrito às vocações na- turais mostraram ser estratégias insuficientes para o desenvol- vimento sustentável da economia. As evidências sugerem que quebrar paradigmas e partir para avanços em competências tec- nológicas é o caminho mais célere e seguro para superar a fase da economia emergente. A atividade industrial é menos vulnerável a flutuações de de- manda e preços de recursos naturais porque ela consegue res- ponder a flutuações como desenvolvimento e introdução de no- vidades no ambiente de negócios. Estas novidades com êxito co- mercial, isto é, as inovações, resultamdo processo de destruição- -criadora. Como afirmou Joseph Schumpeter (1883-1950), o pai da Economia da Inovação, em seu livro de 1942 (“Capitalismo, Socialismo e Democracia”), esse processo constitui a essência e a principal força-motriz do crescimento econômico. A abundância de recursos naturais acabou contribuindo pa- ra que alguns países ainda não tenham realizado sua revolução industrial. A transformação pela qual passaram a Inglaterra, os EUA, outros países da Europa ocidental, Japão, Coreia do Sul e outros países da Ásia, e pela qual passa agora a China, ainda não foi realizada pelos países emergentes, incluindo o Brasil. Essatransformaçãorequeresforçodeliberadoecoordenaçãoen- treaçõesdoestadoedasempresas.Elanãoé rápidanemsegura.Ao contrário, tende a levar décadas e é caracterizada por permanentes incertezas.Contudo,é insubstituível comomeio de conduzir países à condição de crescimento econômico robusto e sustentável. Colocando em perspectiva a Transição Energética, o Brasil tem em seu futuro próximo,mais uma vez, a oportunidade – ou, talvez mais precisamente, a obrigação- de ancorar em sua abun- dância de recursos naturais a concepção e a implantação de ro- tas para avançar em sua revolução industrial. O cenário a ser projetado e perseguido requer mais do que meramente usar as inovações que vão permitir a substituição de fontes fósseis por renováveis. É preciso aproveitar a oportunida- de e tornar o Brasil, para além de mero usuário das tecnologias, emprotagonista no desenvolvimento destas inovações. É preciso mudanças em políticas públicas para que elas passem a impul- sionar empresas brasileiras a desenvolverem pessoas, sistemas, rotinas, equipamentos e outros recursos necessários para desen- volver as tecnologias daTransição Energética. Ou seja, não basta ao Brasil ser mero usuário ou fabrican- te de veículos elétricos, ou de equipamentos para produção de energia eólica ou solar, ou da infraestrutura para captura e inje- ção de GEE nos reservatórios rochosos de onde o petróleo é ex- traído. Estas tecnologias são essenciais para a substituição do petróleo por fontes renováveis e vão contribuir para preservar o baixo custo e as baixas emissões de GEE na produção de petró- leo no Brasil. O que será positivo para a economia do país, pois o excedente de petróleo de baixo custo e baixas emissões resul- tará emmais exportações e em acúmulo de divisas para o país. Mais relevante do que usar estas inovações é acumular as competências necessárias ao desenvolvimento delas. Pois estas capacidades é que vão pavimentar a revolução industrial pela qual o Brasil ainda não passou. O Brasil testemunhou ciclos econômicos importantes ligados à exploração de recursos naturais. Muitos deles ainda presentes e relevantes para a economia do país. Entre estes ciclos, desta- cam-se a exploração de pau-brasil, de borracha natural, de cana- -de-açúcar, de café, de soja, de ouro, de ferro e de petróleo. Afora exceções pontuais, estes ciclos não transformaram o país emreferênciamundial nodesenvolvimentodas tecnologiasnecessá- rias para explorar estes recursos naturais, nem tampouco naquelas que agregamvalor a estes recursos depois deque eles sãoextraídos. OBrasil nãosedestacapelodesenvolvimentodas tecnologias reque- ridaspara fabricar eusar omaquinárioutilizadonaproduçãoebene- ficiamento dos produtos do agronegócio, de metais, e nemmesmo de petróleo.Embora expoente emexploração de petróleo emáguas profundas, o país se destaca como referência mundial no uso, mas não no desenvolvimento de novas tecnologias. Será frustrante, para dizer o mínimo, se nos estágios mais avançados daTransição Energética o Brasil passar a ser reconhe- cido como grande, mas mero usuário de fontes energéticas re- nováveis e das tecnologias necessárias para isso. O país tem to- dos os elementos necessários para ser uma importante referên- cia global tanto no uso de fontes renováveis quanto no desen- volvimento das tecnologias necessárias para isso. Os paradoxos introduzidos pela Transição Energética têm de ser estimulados e combatidos, conforme o caso, por meio demu- danças empolíticas públicas e por melhor coordenação entre es- tado e empresas no sentido de levar o Brasil para a sua revolução industrial. Embora não seja ainda urgente, a trajetória é difícil e o esforço requerido sugere que comecemos o quanto antes.
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