Brasil Energia | Ed. 477 - Setembro, 2022
20 Brasil Energia , nº 477, 20 de setembro de 2022 ENTREVISTA ROBERTO ARDENGHY Mas tem outro aspecto, que é o aspecto da produtividade da própria economia. Vou te dar um exemplo: faz sentido que uma distribuidora do Mato Grosso do Sul, que fica a 1.200 km da refinaria de Paulínia (SP), mande o motorista de- le vir buscar combustível em Paulínia, encher um caminhão com 40 mil litros e voltar 1.200 km pra abastecer lá em cima a fronteira agrícola brasilei- ra? Isso poderia ser feito por um duto, que pode- ria abastecer, como é em outros países. O IBP fez um estudo, recentemente, da necessidade de lo- gística pro setor de downstream, e chegou à con- clusão de que podemos ganhar muito em termos de competitividade se permitirmos investimentos importantes emmodais que não sejammodais ro- doviário pra transportar combustível no Brasil. Nos últimos anos, o IBP concentrou esforços na abertura dos segmentos de gás e refino. O argu- mento principal era de que a livre competição oca- sionaria um choque de energia barata. Por diversos motivos, isso não se concretizou. Como explicar pa- ra o brasileiro comum que a abertura do mercado não realizou a promessa de tornar os preços dos combustíveis (seja o gás, a gasolina, o diesel e o GLP) mais acessíveis? Existem dois aspectos. De início, cabe dizer que o processo de abertura no caso do segmento de refino ainda não está completo. A Petrobras ainda não conseguiu vender todas as unidades de refino previstas no acordo firmado com o Cade por diver- sas razões, inclusive por questões de procedimento. A dificuldade do governo brasileiro de explicar o preço alto é o mesmo desafio da Inglaterra, da França ou da Alemanha. O petróleo está num pa- tamar de preços muito alto. Alémdas pressões ge- opolíticas sobre a cotação do barril, há um com- plicador no Brasil: o câmbio. A desvalorização da moeda nacional exerce pressão sobre os preços da gasolina e do diesel consumidos no Brasil, que vêm de fora. Eles não são produzidos localmente. Ainda sobre as refinarias, cabe destacar o exem- plo da Reman. Estamos falando praticamente de um sistema isolado, é a única refinaria da região Norte do país. Como que a gente vai falar em competição apenas coma trocada titularidadeda refinaria?Essa troca, por si só, vai garantir preços mais acessíveis? Uma unidade de refino em determinado mer- cado possui, obviamente, uma vantagem compe- titiva na localidade onde está instalada. Dificilmen- te um outro agente vai conseguir entrar ali. Esse é um fenômeno natural não apenas da indústria do petróleo. Mas, fora disso, que é um fenôme- no econômico, o resto é competição. Você pode até imaginar que alguém não tenha interesse em construir uma outra refinaria. vai depender tam- bém do tamanho do mercado. Mas nada impe- de que alguém importe o produto pra competir com aquele agente de refino. Se aquele agente de refino estiver praticando um preço com mar- gens muito acima do razoável, vai surgir oportuni- dade pra alguém trazer produto e competir com ele, seja produto nacional ou mesmo importado. Isso pode acontecer perfeitamente no Amazonas, que tem conexões com o mercado do Golfo do México. Você pode trazer navios daquela região, que é uma grande produtora de produtos refina- dos, e levar para aquele mercado. Diante disso, ninguém é dono do mercado de refino. Não é porque alguém detém uma refina- ria que vai assegurar sua condição de monopolis- ta para sempre. Ele sempre vai ser ameaçado no ambiente competitivo; se não tiver competição, o agente ficará tranquilo, porque ele sabe que nin- guém vai ameaçá-lo. Mas se ele sabe que alguém pode chegar e vender um produto mais barato, ele vai sempre manter a margem adequada pra
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